Desde que assumiu interinamente o Governo do Estado do Rio de Janeiro, o desembargador Ricardo Couto tem promovido uma série de mudanças administrativas que vêm redesenhando a estrutura da máquina pública estadual. Em pouco mais de duas semanas no cargo, o governador em exercício adotou medidas que combinam cortes de cargos, substituição de servidores e reorganização de setores estratégicos da administração.
Levantamento divulgado pelo UOL aponta que, da posse até o último dia 19 de junho, foram registradas 4.470 exonerações em 72 órgãos estaduais. Os números chamam atenção pela abrangência das mudanças e pelo alcance em áreas consideradas centrais para o funcionamento do governo.
A Secretaria de Estado da Casa Civil lidera o ranking de dispensas, com 1.190 exonerações. Na sequência aparecem a Secretaria de Governo, com 496 desligamentos, a Secretaria de Ambiente e Sustentabilidade, com 380, e o Detran-RJ, que registrou 320 exonerações no período.
As medidas foram interpretadas por parte do meio político como uma tentativa de enxugamento da estrutura administrativa e revisão de indicações realizadas ao longo dos últimos anos. No entanto, os números revelam um cenário mais complexo do que apenas cortes de cargos.
Ao mesmo tempo em que promove exonerações em larga escala, Ricardo Couto também tem realizado novas nomeações. Nos últimos dias, segundo publicações do Diário Oficial, o número de nomeações passou a superar o de exonerações em determinados períodos, indicando que as mudanças não representam necessariamente uma redução definitiva da máquina pública, mas uma reconfiguração dos quadros de comando e de confiança do governo estadual.
A estratégia tem gerado diferentes interpretações nos bastidores. Enquanto aliados do governo apontam a necessidade de reorganização administrativa diante do cenário político e institucional enfrentado pelo estado, críticos questionam se as exonerações estão efetivamente reduzindo despesas ou apenas substituindo ocupantes de cargos estratégicos.
A situação ganha contornos ainda mais relevantes pelo caráter temporário da atual gestão. Diferentemente dos governadores eleitos, Ricardo Couto não possui trajetória partidária nem está inserido diretamente na disputa eleitoral prevista para outubro. Essa condição faz com que suas decisões sejam analisadas sob uma ótica distinta da política tradicional.
Sem participar da disputa eleitoral e sem a necessidade de construir capital político para futuras campanhas, o governador em exercício tem adotado medidas que, para alguns observadores, podem ser vistas como tentativas de reorganização administrativa. Para outros, as mudanças refletem uma administração de transição diante da indefinição institucional sobre o futuro comando do estado.
O cenário permanece cercado de incertezas. O Supremo Tribunal Federal ainda precisa definir qual será o modelo de escolha do próximo governador do Rio de Janeiro para cumprir o restante do mandato até janeiro de 2027.
A principal discussão gira em torno da realização de uma eleição indireta, conduzida pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), ou de uma eleição direta, com participação dos eleitores fluminenses.
O processo está suspenso no STF desde abril, após pedido de vista do ministro Flávio Dino. Na ocasião, o magistrado argumentou que era necessário aguardar esclarecimentos da Justiça Eleitoral sobre os efeitos da decisão envolvendo o ex-governador Cláudio Castro. Até o momento, o placar da Corte registra quatro votos favoráveis à realização de eleição indireta e um contrário.
Apesar da recente publicação do acórdão pelo Tribunal Superior Eleitoral, a retomada do julgamento ainda depende da devolução do processo por Flávio Dino e da inclusão do caso na pauta do presidente do STF, ministro Edson Fachin. Como o prazo do pedido de vista termina apenas em julho e o Judiciário entra em recesso neste período, uma definição é considerada improvável antes de agosto.
Na prática, isso significa que Ricardo Couto poderá permanecer à frente do Palácio Guanabara por mais algumas semanas ou até meses, administrando um estado que vive uma das maiores indefinições políticas de sua história recente.
Enquanto o impasse jurídico não é resolvido, as mudanças promovidas pelo governador interino seguem alterando a composição do governo estadual e alimentando o debate sobre qual será o legado de uma gestão que, embora temporária, já imprime sua própria marca na administração pública fluminense.






