Por Maria Clara Vital, acadêmica de Medicina, e Dr. Marcio Vital, médico cardiologista
Em meio à correria do dia, o sono muitas vezes parece ser aquilo que podemos “deixar para depois”. Mais uma mensagem, mais alguns minutos de estudo, um episódio antes de dormir… e, quando percebemos, já estamos negociando com o relógio.
Mas dormir não é tempo perdido. Enquanto dormimos, o organismo continua trabalhando. Você sabia disso?
A peça-chave para a sincronia do sono, segundo especialistas, é o hormônio produzido no cérebro pela glândula pineal, chamado melatonina. Um hormônio ativado ao final do dia, quando o sol se põe, dando uma espécie de aviso, como: “Está na hora de diminuir o ritmo e preparar a cama”.
Durante o sono, o cérebro participa de processos importantes de memória e aprendizagem, enquanto o corpo regula funções como o metabolismo, a resposta imunológica e o equilíbrio hormonal. Por isso, uma noite mal dormida não significa apenas acordar com sono: quando a privação se torna frequente, ela pode afetar nossa atenção, nosso humor e nossa saúde de maneira mais ampla.
É por causa desses fatores que o sono não pode ser entendido como um simples ato de fechar os olhos, mas como um processo de restauração que acontece em diferentes etapas.
As etapas do sono
Primeiro vem o adormecimento. É aquele momento em que você ainda não sabe se está dormindo ou apenas pensando na vida. Os músculos relaxam, a respiração fica mais tranquila e o cérebro começa a diminuir o ritmo.
Depois, o sono fica mais profundo. A temperatura corporal, os batimentos cardíacos e a respiração diminuem. Em seguida, chegamos ao sono profundo, uma verdadeira oficina de manutenção do corpo. É nessa etapa que o organismo recupera energia, libera hormônios importantes para o crescimento e ajuda na renovação das células.
Por fim, chega uma fase em que o cérebro volta a ficar bastante ativo: é quando surgem muitos dos nossos sonhos. Nesse momento, ele também ajuda a organizar as memórias, selecionando o que merece ser guardado e o que pode ser descartado. É quase como se o cérebro fizesse uma faxina durante a madrugada.
Em geral, um adulto precisa de cerca de oito horas de sono por noite, mas não existe uma fórmula que funcione igualmente para todo mundo. O problema aparece quando nosso relógio biológico sai do ritmo, seja por causa de uma viagem para outro fuso horário, do trabalho à noite ou simplesmente por ter mais disposição quando o sol já está indo embora.
Quando o sono começa a dar sinais de que algo não está bem, existe uma grande aliada na investigação: a polissonografia, um exame realizado durante o sono que ajuda os especialistas a identificar mais de 80 tipos de distúrbios do sono.
Dentre os distúrbios do sono mais comuns podemos citar:
- Insônia: dificulta o início ou a manutenção do sono.
- Ronco: acontece quando a passagem do ar é prejudicada durante a respiração e, em alguns casos, pode estar relacionado à apneia, que provoca pausas na respiração enquanto a pessoa dorme.
- Bruxismo: quando a pessoa range ou aperta os dentes sem perceber.
- Sonambulismo: pode fazer alguém falar ou até caminhar enquanto ainda está dormindo.
- Narcolepsia: provoca uma sonolência excessiva, podendo levar a pessoa a adormecer durante o dia em situações inesperadas.
A regularidade e a qualidade do sono também fazem diferença. Alguns cuidados simples podem ajudar. Tentar manter horários semelhantes para dormir e acordar, reduzir a exposição a telas e conteúdos estimulantes antes de deitar, evitar cafeína próximo ao horário de dormir e deixar o ambiente escuro, silencioso e confortável são pequenas atitudes que podem favorecer uma boa noite.
Talvez o mais importante seja mudar a forma como enxergamos o descanso. Dormir não é interromper a produtividade. É permitir que o organismo tenha tempo para se recuperar e se preparar para o dia seguinte.
Cuidar do sono é, também, uma forma de cuidar de si. E, às vezes, o primeiro passo para uma rotina mais saudável pode ser simplesmente reconhecer que está na hora de apagar a luz.






