Bate-boca no PSOL expõe racha interno por liderança da bancada na Câmara

Uma reunião da bancada federal do PSOL, realizada na noite de terça-feira (3), terminou em discussão acalorada e troca de acusações entre o grupo majoritário do partido e parlamentares da corrente minoritária, que reivindicam o direito de comandar a liderança da legenda na Câmara dos Deputados em 2026.

O estopim do conflito foi a escolha do deputado Tarcísio Motta (RJ) como novo líder da bancada. Integrantes da ala minoritária afirmam que a decisão desrespeita o estatuto do partido, que, segundo eles, garante a aplicação do princípio da proporcionalidade ao longo da legislatura. O grupo defendia o nome da deputada Sâmia Bomfim (SP) para o cargo.

Com a confirmação de que a maioria manteria o controle da liderança, a tensão aumentou. Na tentativa de contornar o impasse, a presidente nacional do PSOL, Paula Coradi (ES), e a ex-senadora Heloísa Helena, da Rede — partido que integra a federação com o PSOL — sugeriram que a corrente minoritária ficasse com a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher. A proposta, no entanto, também foi rejeitada.

Pelo acordo de divisão das comissões firmado com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), a presidência da comissão cabe ao PSOL. O colegiado foi comandado em 2025 pela deputada Célia Xakriabá (MG).

Desde o início da legislatura, a liderança da bancada permanece sob controle do grupo majoritário, ligado politicamente ao deputado Guilherme Boulos (SP). Boulos foi o primeiro líder, seguido por Érika Hilton (SP) e Talíria Petrone (RJ) — ambas também cotadas para presidir a Comissão da Mulher. Embora seja classificado como “independente”, Tarcísio Motta é acusado pela ala minoritária de ter se alinhado à maioria para assumir o posto.

Diante do impasse, as deputadas Sâmia Bomfim e Fernanda Melchionna (RS) enviaram uma carta à Executiva Nacional do PSOL. No documento, elas acusam o partido de descumprir o estatuto ao não garantir que a minoria exercesse a liderança ao menos uma vez durante a legislatura — que se encerra neste ano.

“Não cumprir essa regra remete aos piores métodos dentro da esquerda, de imposição hegemônica da maioria, esmagando os setores minoritários”, afirmam no texto.

As parlamentares também criticam diretamente a atuação do novo líder:

“Ainda mais lastimável é a postura de Tarcísio, sendo o fiador de todo esse processo, rasgando em definitivo a proporcionalidade da bancada e impedindo, de forma autoritária e burocrática, qualquer tentativa de compensação mínima.”

Tarcísio Motta rebateu as acusações e afirmou que sua escolha seguiu rigorosamente o estatuto da federação PSOL-Rede. Segundo ele, não há qualquer previsão de rodízio automático da liderança.

“Não existe qualquer artigo nos estatutos da Federação PSOL/Rede ou mesmo do PSOL que determine algum tipo de proporcionalidade da liderança da bancada. Tenho o apoio da ampla maioria dos parlamentares da federação e vou exercer a liderança buscando a unidade e respeitando cada mandato”, declarou.

O deputado também destacou sua experiência anterior como líder na Câmara Municipal do Rio, cargo que exerceu por cinco anos.

Em relação à presidência da Comissão da Mulher, a assessoria de Tarcísio informou que a vaga já havia sido definida em acordo firmado em 2023 e que não houve consenso para alterar o entendimento. O parlamentar acrescentou ainda que a corrente minoritária comandou, em 2024, a Comissão de Legislação Participativa e ocupou espaços relevantes ao longo da legislatura, incluindo a CCJ e CPIs.

O episódio evidencia um racha interno no PSOL justamente no último ano do mandato e expõe divergências sobre democracia interna, divisão de poder e rumos da federação à esquerda.

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