Conhecida internacionalmente pelas ondas perfeitas para o surfe, Saquarema ganhou um novo rótulo nos últimos anos: o de município mais rico do Brasil quando o critério é o PIB per capita. Impulsionada pelos volumosos repasses de royalties do petróleo, a cidade da Região dos Lagos virou um verdadeiro canteiro de obras e fechou 2023 com um Produto Interno Bruto per capita de R$ 722.441,52, segundo o IBGE — o maior do país.
O dado, porém, contrasta com a realidade da maior parte da população. De acordo com o Censo 2022, o rendimento médio mensal dos moradores é de R$ 2.310, o que representa menos de R$ 28 mil por ano, abaixo das médias estadual e nacional. A disparidade ajuda a explicar as críticas recorrentes sobre prioridades de investimento, crescimento urbano desordenado e gargalos históricos, como saneamento básico e oferta de serviços públicos.
Entre as queixas mais frequentes estão ruas sem pavimentação, deficiência na rede de esgoto e a falta de profissionais para garantir o pleno funcionamento de novas escolas e unidades de saúde. Ao mesmo tempo, parte da população reconhece avanços proporcionados pelos recursos do petróleo, especialmente em programas de capacitação profissional e de transferência de renda.
É o caso de Vanussa Soares Terra da Silva, de 41 anos. Após concluir um curso oferecido pela prefeitura, ela deixou de ser dona de casa e abriu, este ano, uma padaria artesanal no bairro rural de Vilatur, onde mora.
— Tenho orgulho de dizer que sou mulher pobre, negra e padeira. Moro em rua de terra, mas sei que o asfalto vai chegar. Sou muito ligada à roça e não troco isso — afirma a proprietária da Eva Terra Padaria e Confeitaria, que trabalha com encomendas e retirada no local.
Um estudo elaborado pelos economistas Mauro Osório e Henrique Rabelo, do Instituto de Estudos do Rio de Janeiro (IERJ), mostra que o PIB per capita de Saquarema cresceu 1.398% entre 2010 e 2023. No mesmo período, o avanço foi de apenas 6,2% no estado e 8,2% no país. A população também cresceu acima da média: aumento de 28,3% em 15 anos, chegando a mais de 95 mil moradores em 2025, segundo estimativa do IBGE.
A reportagem é o jornal “O Globo” e mostra que apesar da riqueza, quase metade dos empregos no município é informal. Para Rabelo, o cenário revela fragilidade estrutural.
— Há poucos empregos formais e pouca atividade produtiva. A cidade precisa ir além dos royalties — avalia.
Na educação, os indicadores melhoraram. O Ideb das escolas municipais do 1º ao 5º ano saltou de 3,3, em 2005 — o pior da Região dos Lagos — para 6, em 2023. Mesmo assim, Saquarema ainda fica atrás de municípios vizinhos, como Iguaba Grande e Casimiro de Abreu.
A arrecadação com royalties chegou a R$ 2 bilhões em 2024, um salto expressivo frente aos R$ 5,8 milhões registrados em 2010. Em 2024, 79,37% das despesas do município tiveram origem nesses recursos. Para 2025, a previsão é reduzir a dependência para 71,71%.
Mauro Osório faz um alerta direto:
— O petróleo é finito. Se não houver estratégia econômica para atrair empresas e gerar receitas próprias, a sustentabilidade do município fica em risco.
A prefeitura afirma que os recursos seguem a legislação, que obriga a aplicação dos royalties do pré-sal majoritariamente em educação e saúde. Entre os projetos em andamento estão a Cidade da Educação — que deve abrigar a primeira faculdade de Inteligência Artificial do estado —, a Cidade da Saúde, com o Hospital Municipal Nossa Senhora de Nazareth e a futura Casa do Autista, além da reurbanização da orla, da Praia da Vila até Jaconé.
Mesmo com investimentos, a rede de saúde enfrenta sobrecarga. No Hospital Municipal Porphírio Nunes de Azeredo, no Bacaxá, pacientes relatam longas esperas. Aline da Costa Neto, de 38 anos, conta que aguardou horas por atendimento de emergência e enfrenta dificuldade para marcar consultas especializada
A prefeitura anunciou a previsão de um concurso público ainda neste semestre, com 1.794 vagas nas áreas de educação, saúde e segurança, como forma de reforçar o quadro de servidores.
O saneamento segue como um dos principais desafios. Moradores e representantes da sociedade civil criticam a poluição de canais e lagoas e a ausência de rede de esgoto em algumas regiões. As concessionárias responsáveis afirmam que o abastecimento de água é quase universal, mas admitem que a ampliação da rede de esgoto ainda está em andamento, com metas que se estendem até 2033 e 2038, dependendo da área.
Há ainda críticas ao avanço de construções irregulares, especialmente em áreas sensíveis, como antigas zonas de preservação. A prefeitura informa ter realizado cerca de 2.500 autos de embargo em 2024 e 2025 e diz usar monitoramento por satélite para coibir irregularidades.
Enquanto Saquarema ostenta números bilionários e obras por todos os lados, o desafio permanece: transformar a riqueza do petróleo em desenvolvimento equilibrado e duradouro, capaz de reduzir desigualdades e preparar a cidade para um futuro além do ouro negro.






