Prédio no Buraco do Lume provoca disputa política e urbanística no Centro do Rio

A construção de um novo empreendimento imobiliário no tradicional Buraco do Lume, na região do Castelo, no Centro do Rio de Janeiro, voltou a gerar debate político e urbanístico sobre o futuro de uma das áreas mais simbólicas da capital fluminense. O projeto prevê a construção de um prédio residencial de 20 andares, com 624 apartamentos e quatro lojas comerciais, dentro do programa Reviver Centro, iniciativa da Prefeitura do Rio voltada à revitalização da região central.

O terreno, localizado ao lado da Praça Mário Lago, foi cercado recentemente com tapumes, o que provocou reação de setores políticos e movimentos sociais que historicamente utilizavam o espaço como ponto de encontro, manifestações e articulações no Centro da cidade. A responsável pelo empreendimento é a Patrimar, que pretende iniciar até junho a venda das unidades ainda na planta. Os imóveis terão tipologias que variam entre estúdios e apartamentos de até dois quartos, sem vaga de garagem.

A instalação dos tapumes foi o principal motivo da nova polêmica. Integrantes de movimentos políticos, especialmente ligados à esquerda carioca, questionaram a ocupação de um espaço que, ao longo dos anos, passou a ser visto como uma área de convivência pública. O presidente do Grupo Patrimar, Alex Veiga, afirmou que o local sempre foi uma propriedade privada e que a colocação da estrutura teve apenas o objetivo de delimitar oficialmente o terreno.

Segundo ele, a área nunca pertenceu à Praça Mário Lago, apesar da percepção popular consolidada ao longo do tempo. A situação levou o deputado federal Chico Alencar (PSOL) a acionar o Ministério Público, que abriu um inquérito para apurar possíveis irregularidades no processo de licenciamento da obra pela Prefeitura do Rio.

O projeto atual passou por mudanças em relação à proposta original apresentada pela construtora. Inicialmente, a previsão era de um edifício de 24 andares com 720 unidades residenciais. Após análise do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH), o empreendimento precisou ser adaptado para respeitar a ambiência urbana da região.

A altura foi reduzida e o novo limite passou a seguir o gabarito do edifício-garagem Edifício Menezes Cortes, localizado ao lado do terreno. De acordo com o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento, Gustavo Guerrante, a alteração teve como objetivo preservar a harmonia visual e arquitetônica do entorno. Ainda não foram divulgados os valores das unidades nem o cronograma oficial de entrega, embora empreendimentos desse porte costumem ter prazo médio de cerca de 30 meses.

O Buraco do Lume é alvo de disputas urbanísticas há mais de cinco décadas. A origem da área remonta ao desmonte do antigo Morro do Castelo, uma das maiores transformações urbanas da história do Rio de Janeiro no início do século XX. Em 1972, chegou a existir um projeto para a construção de um edifício de 50 andares no local, mas a construtora responsável entrou em falência antes da conclusão. Apenas parte da estrutura inicial foi executada.

Na época, o empreendimento era conduzido pelo Grupo Lume, ligado ao empresário Lynaldo Uchoa de Medeiros. Com a falência da empresa, o imóvel passou a integrar os ativos do antigo Banerj. Desde então, o espaço passou por diversas mudanças legais. Durante a gestão do ex-prefeito Saturnino Braga, o terreno chegou a ser tombado, mas o tombamento foi retirado em 2020 por lei sancionada pelo então prefeito Marcelo Crivella.

A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro chegou a aprovar nova norma para retomar a proteção patrimonial da área, mas em 2022 os deputados estaduais aprovaram outro projeto retirando novamente o tombamento, por iniciativa do deputado Rodrigo Amorim.

A construção está inserida no programa Reviver Centro, criado para estimular a ocupação residencial da região central e reduzir a dependência exclusiva das atividades comerciais. A proposta da prefeitura é ampliar a circulação de moradores, fortalecer o comércio local e revitalizar espaços historicamente esvaziados fora do horário comercial.

No entanto, o caso do Buraco do Lume mostra que revitalizar o Centro envolve mais do que novas construções. A discussão também passa pela preservação da memória urbana, pelo uso social dos espaços e pela disputa sobre quem decide o futuro de áreas históricas da cidade.

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