A disputa pelo governo do Rio ganhou um novo capítulo nos bastidores. A menos de 40 dias da eleição, prefeitos de diferentes regiões do Estado estão evitando declarar apoio público a Eduardo Paes (PSD) ou Douglas Ruas (PL), em uma estratégia que começa a preocupar os dois lados.
Antes da campanha, o PL calculava ter apoio de prefeitos e grupos políticos em cerca de 70 dos 92 municípios fluminenses. Mas parte dessa estrutura ainda não entrou efetivamente na disputa. Levantamento divulgado pelo jornal O Globo apontou que nove dos 22 prefeitos eleitos pelo próprio PL não haviam declarado publicamente apoio a Ruas nos primeiros dias da campanha.
A cautela tem uma razão política: os prefeitos querem evitar um movimento precipitado enquanto ainda existe incerteza sobre quem terá condições reais de chegar ao Palácio Guanabara. Para muitos deles, apoiar Paes agora e ver Ruas vencer pode significar dificuldades na relação com o futuro governo. Fazer o movimento contrário também representa um risco caso o prefeito do Rio consiga se consolidar na corrida.
Saída de Castro mudou o jogo
O cenário se tornou ainda mais delicado depois da saída de Cláudio Castro (PL) do governo estadual. Douglas Ruas chegou a tentar assumir o Executivo por ser presidente da Alerj, mas o comando do Estado acabou ficando temporariamente com o presidente do Tribunal de Justiça do Rio, Ricardo Couto, por decisão do Supremo Tribunal Federal.
Com isso, o candidato do PL perdeu uma vantagem que poderia ser importante na campanha: a possibilidade de contar com uma estrutura estadual diretamente ligada à sua candidatura. A mobilização dos prefeitos passou a ter peso ainda maior para levar Ruas a diferentes regiões do Estado.
A situação também chamou a atenção de Flávio Bolsonaro (PL). O senador já percebeu a resistência de parte dos prefeitos em entrar de cabeça na campanha e deixou claro que poderá cobrar dos aliados caso ele e Ruas saiam vencedores das urnas.
Paes aproveita espaço deixado pelo adversário
Enquanto o PL tenta tirar os prefeitos da neutralidade, Eduardo Paes ampliou sua presença no interior e passou a disputar diretamente os territórios onde Ruas busca construir sua base eleitoral. A estratégia inclui cidades da Baixada Fluminense e da Região dos Lagos, criando uma espécie de disputa por presença política.
Em Nova Iguaçu, os dois candidatos estiveram no município no mesmo dia. Em Búzios, Paes fez uma caminhada e teve um encontro rápido com o prefeito Alexandre Martins (Republicanos). Ruas também esteve na cidade em período próximo, mas não se reuniu com o prefeito nem com Daniele Martins, esposa do prefeito e candidata à Alerj apoiada por Flávio Bolsonaro.
A movimentação interessa especialmente a Paes porque PP e União Brasil deixaram a aliança com o PL na disputa estadual e liberaram seus filiados. Em Nova Iguaçu, por exemplo, o prefeito Dudu Reina (PP) integra o grupo político de Rogério Lisboa, ligado ao deputado federal Dr. Luizinho (PP), que mantém aproximação com Paes.
Prefeitos querem manter portas abertas
A neutralidade, porém, não significa necessariamente rompimento com Douglas Ruas. Em muitos municípios, a estratégia é manter conversas com os dois grupos até que a disputa apresente um favorito mais claro.
Um dos coordenadores da campanha de Ruas, Bruno Bonetti, rejeita a interpretação de que exista uma onda de deserções no PL. Segundo ele, encontros institucionais de prefeitos com políticos de outros partidos não representam, automaticamente, mudança de posição eleitoral.
O problema é que o calendário eleitoral está correndo. Com pouco mais de um mês até a votação, cada prefeito que permanece em cima do muro representa uma estrutura municipal que ainda não está totalmente mobilizada por nenhum dos candidatos.
A eleição, portanto, começa a ser disputada não apenas nas pesquisas e nas agendas públicas, mas também nos bastidores das prefeituras. Paes tenta transformar a cautela dos aliados de Ruas em oportunidade para avançar sobre novos territórios, enquanto o candidato do PL precisa converter apoios políticos em presença efetiva nas ruas.
No fim, a pergunta que movimenta os bastidores é simples: quem estará no comando do Rio depois da eleição? Enquanto essa resposta não aparece, muitos prefeitos preferem manter as duas portas abertas.






