A passagem da Acadêmicos de Niterói pelo Grupo Especial do Carnaval 2026 terminou de forma melancólica e cercada de controvérsias. Com 264,6 pontos, a escola ficou na última colocação e foi rebaixada para a Série Ouro, encerrando sua estreia na elite com um saldo considerado desastroso nos bastidores do samba — e também da política.
O enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, em homenagem ao presidente Lula, colocou a escola no centro de um debate nacional ao misturar Carnaval e discurso político explícito. A forte carga ideológica gerou repercussão antes mesmo de a agremiação entrar na avenida, ampliando a pressão sobre o desfile.
Às vésperas da apresentação, uma tentativa de barrar referências ao presidente foi rejeitada pelo Tribunal Regional Federal da 2ª Região, que garantiu à escola o direito de levar o enredo à pista com base na liberdade de expressão.
Depois do desfile, no entanto, alas que faziam críticas a grupos conservadores provocaram reação imediata da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro e da OAB-RJ, que divulgaram notas questionando o uso de símbolos religiosos na apresentação. Parlamentares ligados à bancada evangélica também se manifestaram, levantando a possibilidade de ações judiciais.
O caso chegou ao Tribunal Superior Eleitoral, que rejeitou uma liminar contra a escola, proposta pelo Partido Novo. A decisão, porém, veio acompanhada de um alerta. A presidente da Corte, a ministra Cármen Lúcia, afirmou que o Carnaval não pode servir de “salvo-conduto” para irregularidades: “É um ambiente muito propício a excessos, abusos e ilícitos. A festa popular do Carnaval não pode ser uma fresta para ilícitos eleitorais”.
A polêmica ganhou novo capítulo com a revelação de que a escola recebeu recursos federais. Em um acordo assinado em 19 de janeiro, o Ministério da Cultura e a Embratur firmaram termo de cooperação técnica que destinou R$ 12 milhões às 12 escolas do Grupo Especial — R$ 1 milhão para cada agremiação. Além disso, a Acadêmicos de Niterói também contou com subvenções das prefeituras do Rio e de Niterói.
Técnicos do Tribunal de Contas da União recomendaram a suspensão do repasse em 2 de fevereiro, mas o relator do caso, o ministro Aroldo Cedraz, rejeitou o pedido quatro dias depois.
Nos bastidores políticos, a avaliação é que o episódio pode ter efeito contrário ao pretendido. Em vez de fortalecer a imagem do presidente junto ao eleitorado popular, a associação direta entre samba-enredo, recursos públicos e discurso político acabou ampliando críticas e ruídos, sobretudo entre eleitores religiosos e conservadores — um segmento estratégico em disputas eleitorais nacionais.
A presença simbólica da primeira-dama Rosângela da Silva chegou a ser cogitada, mas acabou descartada. Ela não entrou na avenida e acompanhou o desfile do camarote da Prefeitura do Rio. Quem ocupou espaço de destaque foi a cantora Fafá de Belém, convidada pela escola.
Do ponto de vista técnico, o resultado foi duro. A Acadêmicos de Niterói recebeu apenas duas notas 10 no quesito samba-enredo e terminou mais de dois pontos atrás da penúltima colocada, confirmando o rebaixamento. Em nota divulgada nesta segunda-feira (16), a escola afirmou ter sido alvo de perseguição durante a preparação para o Carnaval em razão do enredo escolhido e pediu um julgamento “justo, técnico e transparente”.
Enquanto a agremiação se prepara para disputar a Série Ouro em 2027, a polêmica deixa um rastro que ultrapassa o samba. No tabuleiro político, cresce a leitura de que a mistura entre Carnaval e propaganda ideológica, longe de ajudar, pode acabar atrapalhando os planos eleitorais de Lula.






