O Rio de Janeiro caminha para um cenário político raro — e potencialmente explosivo — em 2026: a possibilidade de o estado ter dois governadores no mesmo ano, um escolhido de forma indireta e outro eleito pelo voto popular.
A situação está ligada à provável renúncia do governador Cláudio Castro (PL), que precisa deixar o cargo até o início de abril caso confirme a candidatura ao Senado nas eleições de outubro. Se isso acontecer, o Palácio Guanabara ficará vago em meio a um cenário institucional atípico, abrindo caminho para uma eleição indireta na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).
Um vácuo de poder no Executivo estadual
Diferentemente do que ocorre em situações normais de renúncia, o Rio não tem hoje um vice-governador para assumir automaticamente o comando do Executivo. O cargo está vago desde maio de 2025, quando Thiago Pampolha deixou a vice-governadoria para assumir uma vaga no Tribunal de Contas do Estado (TCE).
À época, a movimentação política tinha um pano de fundo claro: fortalecer a linha sucessória do então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União), aliado de Cláudio Castro e tratado publicamente como seu possível sucessor. Bacellar chegou a ser eleito presidente da Casa por unanimidade e era apontado como favorito para assumir um eventual mandato-tampão.
Esse cenário, no entanto, ruiu.
Crise na Alerj e eleição indireta
Rodrigo Bacellar foi afastado do comando da Alerj após ser preso em uma operação da Polícia Federal. Ele é investigado por suspeita de vazamento de informações sigilosas envolvendo uma operação contra o deputado conhecido como TH Joias.
Com Bacellar fora do cargo, as sessões do Legislativo passaram a ser comandadas por Guilherme Delaroli, presidente interino da Casa. Pela Constituição estadual, porém, o presidente interino não pode assumir o governo do estado.
Com isso, a sucessão chega ao presidente do Tribunal de Justiça do Rio, desembargador Ricardo Couto. Caberia a ele assumir o governo apenas de forma provisória, com uma missão específica: convocar e conduzir, em até 30 dias, uma eleição indireta na Alerj, conforme determina o artigo 142 da Constituição do Estado do Rio de Janeiro.
Essa eleição definiria quem governará o estado até janeiro de 2027, quando toma posse o governador eleito pelo voto direto nas eleições de outubro de 2026.
O que é, afinal, um governador-tampão?
O governador-tampão é um chefe do Executivo escolhido de maneira provisória para concluir um mandato em curso. No caso do Rio, ele seria eleito pelos deputados estaduais, em votação aberta, e não pela população.
Apesar de temporário, o cargo tem enorme peso político. O ocupante comandaria a máquina estadual em pleno ano eleitoral, com influência direta sobre orçamento, políticas públicas, alianças e articulações partidárias — fatores que podem interferir decisivamente na disputa de outubro.
Bastidores fervem e disputa se antecipa
A simples possibilidade de um mandato-tampão já colocou os bastidores da política fluminense em ebulição. Segundo apuração do Blog do Octavio Guedes, o PT avalia lançar o nome de André Ceciliano, atual secretário de Assuntos Parlamentares do governo federal e ex-presidente da Alerj entre 2019 e 2023.
A aposta do partido se baseia na forte influência de Ceciliano sobre os deputados estaduais — justamente os responsáveis pela eleição indireta. Para o PT, controlar o governo do estado, ainda que temporariamente, seria estratégico para fortalecer o palanque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Rio e, ao mesmo tempo, ampliar a capacidade de pressão política sobre o prefeito da capital, Eduardo Paes (PSD), já confirmado como pré-candidato ao governo estadual.
Aliados petistas avaliam que Paes, que precisa buscar votos no interior do estado — tradicionalmente mais conservador —, tende a evitar uma associação direta com Lula durante a campanha.
Troca de farpas e disputa antecipada
O clima de disputa já transbordou para o discurso público. Na última segunda-feira (19), Eduardo Paes afirmou que apoiará Lula, mas admitiu que pode fazer alianças locais com políticos que se opõem ao presidente.
Na mesma fala, o prefeito atacou André Ceciliano, associando-o a práticas do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar. A resposta veio em tom ácido. Ceciliano classificou a declaração como uma “fala nervosinha”, em referência ao suposto apelido de Paes em planilhas da Lava Jato.
Caso seja eleito governador-tampão, Ceciliano poderia disputar a reeleição em outubro, entrando diretamente na corrida pelo Palácio Guanabara contra o prefeito da capital.
Outros nomes no tabuleiro
Do lado de Cláudio Castro, a defesa é para que o mandato-tampão fique com Nicola Miccione, secretário estadual da Casa Civil. A avaliação é que Miccione não disputaria as eleições de outubro, funcionando como uma opção de transição institucional e reduzindo interferências no processo eleitoral.
Já a possibilidade de Douglas Ruas (PL), secretário estadual das Cidades, assumir o cargo preocupa aliados de Castro. Ruas pretende concorrer ao governo em outubro e, se eleito indiretamente pela Alerj, poderia tentar a reeleição no voto direto — o que criaria um novo e forte obstáculo para Eduardo Paes. Hoje, Ruas é apontado como o nome preferido da família Bolsonaro.
Enquanto Cláudio Castro não oficializa sua decisão, o Rio observa a construção de um cenário político incomum, marcado por disputas antecipadas, crise institucional e a possibilidade real de o estado escolher dois governadores em um mesmo ano.


