O que deveria ser uma noite festiva em Saquarema, na Região dos Lagos do Rio, transformou-se em mais um capítulo de controvérsia envolvendo os altos gastos da prefeitura com a decoração natalina. A Árvore de Natal flutuante de 37 metros — que custou cerca de R$ 2,5 milhões — apresentou falhas técnicas durante a inauguração na noite de sábado (29), deixando parte da estrutura às escuras diante do público.
A cena de desconforto, registrada por moradores e turistas, reacendeu críticas sobre a justificativa e a transparência dos investimentos milionários no chamado Natal de Luz. A estrutura, anunciada como ponto alto da programação, ficou com trechos apagados durante a apresentação, levantando questionamentos sobre a qualidade e o custo da obra.
O problema surge em meio a uma investigação já existente do Tribunal de Contas do Estado (TCE), que analisa os gastos da prefeitura com a festa deste ano: quase R$ 11,3 milhões. Entre os itens que chamam a atenção está a Casa do Papai Noel, uma estrutura simples de madeira com 42 m², orçada em R$ 210 mil.
Para efeito de comparação, uma casa real no bairro Porto da Roça — com 100 m², três quartos, piscina e sauna — é anunciada pelo mesmo valor. Outra residência, também no bairro, com 50 m², custa R$ 165 mil, ou seja, R$ 45 mil a menos do que a casa temática de enfeite.
A empresa responsável pela decoração é a Word Effeitos, de Vinícius Barbosa da Silva Andrada. Ele já prestou serviços semelhantes à prefeitura em 2021, naquela ocasião por meio de outra companhia de sua propriedade, a Vacc Indústria, Comércio e Serviços. Comparações feitas pela reportagem mostram que, há apenas quatro anos, uma árvore de Natal semelhante — com 35 metros — foi orçada em R$ 604 mil, valor quatro vezes menor do que o contratado agora.
Os custos totais da decoração também avançaram de forma expressiva: em 2021, o valor total do contrato foi de R$ 2,1 milhões, menos de um quinto do que é gasto atualmente.
Suspeitas de superfaturamento e investigações em curso
Os números estratosféricos levantaram alertas. O Natal de Luz deste ano é alvo de uma representação no Tribunal de Contas, que recebeu pedido de tutela provisória para suspender os pagamentos devido a suspeitas de irregularidades no processo de contratação.
A denúncia, apresentada pela empresa AC Gestão, Planejamento e Serviços Ltda., aponta falhas no edital, como adoção indevida do critério de menor preço por grupo — que permite agrupar serviços diferentes em um único lote — além da exigência de certidão de acervo técnico considerada inadequada pelos denunciantes.
O conselheiro do TCE, Christiano Lacerda Ghuerren, determinou que a prefeitura se manifeste sobre as acusações.
As preocupações com possíveis irregularidades não são novas. Em 2021, o TCE identificou problemas em contratações semelhantes, resultando na multa do secretário Rafael da Costa Castro, responsável pela pasta de Esporte, Lazer e Turismo. Apesar da penalidade, ele permanece no cargo e continua à frente do evento neste ano.
Em 2023, o Ministério Público também abriu investigação sobre indícios de superfaturamento em um contrato de quase R$ 12 milhões, processo ainda em andamento.
Entre o luxo e as falhas, a população questiona prioridades
Com a árvore apagando na inauguração e os números milionários voltando ao centro do debate, cresce a percepção de que o Natal iluminado de Saquarema tem brilhado mais pelo escândalo do que pela magia. Enquanto a prefeitura insiste em defender o evento como atrativo turístico, muitos moradores questionam se a luz necessária não está faltando em áreas mais essenciais do município.


