900 milhões vão às urnas: como a Índia organiza a maior eleição do mundo

© BBC São esperados 900 milhões de eleitores no próximo pleito indiano

Há mais de uma década, a cada eleição na Índia, oficiais de órgãos eleitorais entram na floresta de Gir, repleta de leões, para recolher o voto de um único homem.

São cerca de cinco funcionários, acompanhados por dois policiais. Eles carregam todo o material de votação, incluindo a Máquina de Votação Eletrônica (EVM na sigla em inglês, como é conhecido o aparelho – eletrônico como no Brasil, mas diferente da nossa urna elerônica em aparência e funcionamento).

Depois de uma longa jornada, eles terminam de montar um guichê de votação para o guru Bharatdas Darshandas dentro de um raio de 2 km de sua residência, como mandam as regras.

O eleitor solitário, agora com 60 e poucos anos, cuida de um templo dentro da floresta no Estado de Guzerate.

“Havia 45 de nós no templo, morando aqui. Recebíamos um grande número de peregrinos. Até que as autoridades florestais começaram a dificultar as coisas. Então, todos eles partiram, e eu sou o último eleitor “, disse ele à BBC em 2009.

Ele espera ver melhores estradas na selva para que mais peregrinos possam visitá-lo.

“Mas eu me sinto bem que as autoridades venham aqui para coletar meu voto. Fico honrado.”

A história de Bharatdas oferece um vislumbre da complexidade da eleição geral da Índia.

Do Himalaia ao litoral

A Índia vai às urnas novamente para uma eleição geral. O processo é longo e as datas de votação vão desta quinta-feira (11) até 19 de maio – em alguns Estados, a eleição se dará por etapas. Com 900 milhões de eleitores, será o maior pleito que o mundo já viu.

Mas como um país administra eleições para 12% da população mundial?

Cerca de um milhão de pontos de voto são instalados para cobrir a vasta extensão de terra – e seus 29 estados e sete territórios da União.

De camelo a helicóptero, é preciso chegar ao eleitor© BBC De camelo a helicóptero, é preciso chegar ao eleitor

A área inclui “uma grande zona montanhosa no norte (o Himalaia), vastas planícies no norte e partes centrais, uma região desértica no oeste, florestas por toda parte e uma longa costa em torno da península no sul”, escreveu S. Y. Quraishi, ex-chefe da comissão eleitoral, em seu livro “Uma maravilha indocumentada: a grande eleição indiana” (tradução livre).

Com tantos obstáculos geográficos, garantir acesso às urnas a todos os eleitores pode ser um desafio. O local de votação considerado mais inacessível, no Estado de Himachal Pradesh, fica a 4.440 metros acima do nível do mar.

Para caminhar os vários quilômetros até ali, funcionários carregam nas costas cilindros de oxigênio, sacos de dormir, comida e tochas, junto com as máquinas de votação.

“Todas as formas de transporte, do primitivo ao ultramoderno – elefantes, camelos, barcos, bicicletas, helicópteros, trens e aviões -, são usadas ​​para alcançar os eleitores”, relata Quraishi.

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Cerca de 10 milhões de funcionários farão parte da organização das eleições deste ano – número de pessoas quase igual à população da Suécia. Estão aí incluídos militares, observadores, produtores de vídeo e autoridades eleitorais.

Eles são destinados a diferentes localidades de forma aleatória, para evitar qualquer viés. Em campo, precisam lidar com realidades complexas.

Da violência a votações falsas

No Estado de Bihar, por exemplo, há repetidos casos de “captura de estandes” – isto é, quando membros de um partido ocupam uma cabine de votação e depositam votos falsos usando os nomes de pessoas regularmente registradas.

Isto afasta os eleitores e leva a uma menor participação, especialmente entre as mulheres – embora seja algo menos comum com o uso das máquinas de votação eletrônicas.

A comissão eleitoral trata disso dividindo o processo de votação em seis ou sete fases – o que permite-lhes alocar as forças de segurança de acordo com a demanda.

Já no Estado de Manipur, há a ameaça do voto falso, com o uso da tecnologia de reconhecimento facial.

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Quraishi lembra em seu livro de um caso em que uma eleitora foi votar “mais de sessenta vezes em diferentes disfarces”.

Apesar de tais precauções, houve vários incidentes de violência nas últimas eleições, de 2014. Os estados mais afetados foram Caxemira, Jharkhand e Assam.

As forças de segurança estão agora correndo contra o tempo para evitar incidentes semelhantes nas próximas eleições.

No Estado de Jharkhand, algumas rotas estão sendo limpas de minas colocadas por uma guerrilha de esquerda.

Em Assam, há risco de violência insurgente e de confrontos comunais.

Das datas das eleições aos símbolos

A eleição da Índia este ano será distribuída por seis semanas, nas quais milhares de candidatos comparecerão a 543 distritos eleitorais.

“Começamos a nos preparar com um ano de antecedência”, disse à BBC o ex-comissário-chefe de eleições T. S. Krishnamurthy. “Exceto pelo registro de eleitores, este é um processo contínuo”.

Foi neste procedimento que a comissão conseguiu localizar um dos eleitores mais antigos da Índia: Shyam Saran Negi.

O professor aposentado votou em todas as eleições gerais desde 1951. Agora, aos 102 anos, ele deverá votar novamente no Estado de Himachal Pradesh.

Muito antes de o eleitor chegar à cabine de votação, há uma variedade de tarefas a serem feitas:

• Obtenção e alocação de máquinas EVM em todo o país; • Escolha das datas adequadas para as eleições, evitando datas festivas, grandes exames, importantes temporadas para a agricultura ou condições climáticas extremas;• Encomenda de grandes quantidades de tinta indelével, aplicada no dedo de cada eleitor para evitar o voto duplo;• Atribuição de símbolos para cada partido e os inúmeros candidatos independentes para que os eleitores possam identificá-los rapidamente.

Este último ponto vem com uma história interessante.

O homem por trás dos símbolos, M. S. Sethi, sentava-se com sua equipe nos anos 90 para debater… objetos do cotidiano como uma mesa, telefone, armário e escova de dentes.

Símbolos com representações de objetos do dia-a-dia ajudam a identificar partidos e candidatos© BBC Símbolos com representações de objetos do dia-a-dia ajudam a identificar partidos e candidatos

É que estes itens seriam desenhados como forma de identificar os políticos.

A ideia de usar símbolos foi concebida antes da primeira eleição geral (que ocorreu de outubro de 1951 a fevereiro de 1952), quando cerca de 84% dos eleitores não sabiam ler e escrever.

Da logística à regulação

“Mas o trabalho logístico não é o mais desafiador”, diz Krishnamurthy. “É o processo de regular os partidos políticos.”

E o número de siglas cresceu muito: na primeira eleição, somavam 55, e em 2014 já chegavam a 464.

Enquanto isso, tentar comprar votos com dinheiro e outros presentes na corrida eleitoral é algo amplamente disseminado na Índia.

Há também preocupação com o financiamento opaco dos partidos políticos no país.

“Nós alertamos e repreendemos as partes durante violações, mas não temos o poder de desqualificar ou suspender candidatos”, explica Krishnamurthy.

Para garantir a confiabilidade da contagem de votos, os oficiais realizam uma pesquisa simulada em cada local da votação.

Mas, de tempos em tempos, dúvidas sobre as máquinas são levantadas. As partes, geralmente do lado perdedor, costumam alegar que os equipamentos podem ser invadidos e as cédulas, manipuladas.

As autoridades sustentam que as máquinas não podem ser adulteradas eletronicamente, e a manipulação física é facilmente detectável.

A comissão eleitoral enfrenta esses desafios evocando valores como liberdade e justiça nas eleições. Eles conseguirão prevalecer no próximo pleito?

O mundo precisará esperar pelo dia 23 de maio – quando os resultados da eleição serão anunciados – para descobrir.

VIA: BBC News

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