>RIO – Desde pequeno, Gabriel Martins de Oliveira, de 17 anos, é hábil em cálculos, especialmente quando relacionados à construção civil. Ele mora na Matinha, comunidade vizinha à Rocinha, é o melhor aluno de sua turma, no Ciep Ayrton Senna, e sonha em ser engenheiro. No ano que vem, o adolescente vai para o ensino médio, e, se continuar os estudos na rede estadual, ganhará um incentivo do estado por cada ano letivo concluído. Ele receberá uma poupança, que pode chegar a R$ 3.100 ao fim de três anos, ou a R$ 4.300 em quatro anos, no caso dos alunos do ensino técnico. Os recursos fazem parte do programa Renda Melhor Jovem, que começou este ano em Japeri, Belford Roxo e São Gonçalo, e aporta em fevereiro na capital e em outras 35 cidades.
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Poderão fazer parte do projeto jovens que tenham entrado no ensino médio com idade entre 15 e 17 anos, façam parte de famílias com renda per capita abaixo de R$ 100 e que sejam inscritas no Cartão Família Carioca, da prefeitura, ou no Renda Melhor, do estado. A meta da Secretaria estadual de Assistência Social e Direitos Humanos é beneficiar 12 mil no município do Rio, e 20 mil no resto do estado em 2012. Como o objetivo é não deixar nenhum adolescente com perfil para o programa de fora, agentes da prefeitura e do estado iniciaram pela Rocinha, após a pacificação, a busca ativa de famílias em situação de extrema pobreza.
No caso da família de Gabriel, não será preciso: eles já recebem o dinheiro do Cartão Família Carioca, e os adolescentes aptos para o programa ingressarão no sistema do estado automaticamente. O dinheiro pode ajudar no futuro do adolescente, como no pagamento de parcelas de uma faculdade. Isso se ele não passar na prova de uma bolsa de estudos para uma escola particular da Lagoa.
— Passei de ano no 3º bimestre. Gosto de matemática, mas tenho que me aprofundar muito porque quero ser engenheiro civil. Quando era pequeno gostava de fazer contas, calculava os diâmetros, como do muro de casa — conta Gabriel, que gostaria de ter um tablet.
Na casa de Gabriel moram ele, quatro irmãos, o padrasto e a mãe, grávida de oito meses. A renda da família se resume hoje a R$ 134 do Bolsa Família e R$ 69 do Cartão Família Carioca. O padrasto, Carlos Eduardo, começou há 15 dias a trabalhar em uma obra, e ainda não recebeu salário.
— Hoje (terça-feira) estive na escola do Gabriel e os professores disseram que estão muito felizes por ele ser bom em todas as matérias. Nos dias de ocupação, só ele foi à aula. Hoje sinto que a escola me fez muita falta. Parei de estudar no 5º ano, e podia ter sido algo melhor — lamenta a mãe, Alessandra Martins Ramos de Oliveira, de 34 anos.
Por causa do histórico, ela cobra a presença dos filhos na escola, e é contra os mais velhos trabalharem antes de concluírem o ensino médio. Além de Gabriel, a filha Laira, de 15 anos, poderá ganhar a poupança, pois vai ingressar no ensino médio.
Os depósitos serão feitos a cada ano, sendo R$ 700 para o primeiro ano do ensino médio, R$ 900 pelo segundo ano, e R$ 1 mil pelo terceiro. Se o aluno for bem no Enem, ganha um bônus de R$ 500. E se estudar numa escola técnica, recebe ainda R$ 1.200 pelo quarto ano.
— Mais do que a transferência de renda, o Renda Melhor tem o objetivo de promover a superação sustentável da pobreza com o incentivo à permanência e conclusão do ensino médio e com o aumento da escolaridade dos jovens das famílias mais pobres — diz o secretário estadual de Assistência Social e Direitos Humanos, Rodrigo Neves.
Adolescente da Rocinha estuda para ser físico
Do outro lado da Autoestrada Lagoa-Barra, na localidade da Rocinha conhecida como Valão, outro adolescente se destaca. Thiago Gomes Araújo, de 15 anos, nunca teve muito espaço para estudar, nem dinheiro para livros. Originário de uma escola municipal, ele conseguiu no ano passado passar na prova que lhe garantiu uma bolsa em uma escola particular, onde cursa o 1º ano do ensino médio. Quando não está na escola, com amigos de turma ou com a namorada, também do mesmo colégio, Thiago está em casa estudando ou pesquisando no computador, de modelo antigo.
As dificuldades da família, comandada pela mãe, a diarista Maria Detice Gomes, de 50 anos, nunca foram obstáculos para o seu avanço. A casa de Thiago possui apenas um quarto — onde dormem ele, a mãe e os dois irmãos, de 12 e 8 anos —, um banheiro e um segundo cômodo, onde fica a cozinha, a escrivaninha e os livros do estudante. O pequeno imóvel foi erguido sobre um valão, cujo cheiro invade o local.
Aos poucos, Thiago vai conseguindo montar uma pequena biblioteca. Um dos últimos títulos que leu, tanto em português quanto em inglês, foi “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde. Seu esforço, somado à facilidade para aprender, já lhe rendeu média 9,8 em Química. Ele, no entanto, quer ser físico.
— Sempre gostei de números. Antes queria ser matemático — afirma o adolescente, que evela o quer quer para o futuro. — Quero trabalhar com pesquisa, e queria ir para um lugar melhor, com mais espaço e privacidade. Também queria fazer uma biblioteca.
Como estuda em escola particular, Thiago não tem direito à poupança, mas os irmãos, que estão na rede pública, poderão entrar no programa quando forem para o ensino médio. Maria Detice sustenta a casa com R$ 300 que ganha por mês fazendo faxinas, R$ 166 do Bolsa Família e R$ 214 do Cartão Família Carioca. O ex-marido também ajuda quando pode.
Thiago é um dos 881 jovens (de 13 a 18 anos) das 1.303 famílias da Rocinha, Chácara do Céu e Vidigal cadastradas no Cartão Família Carioca. Em toda a cidade há 97.951 famílias no programa (com 65.748 jovens), que complementa a renda de quem está abaixo da linha da pobreza, assim como o Renda Melhor e o Bolsa Família.
— Nós tínhamos na Rocinha aproximadamente 500 famílias cadastradas, número aquém do que a gente imagina. Pelo perfil de renda, acreditamos que de 3 mil a 3.500 famílias, com renda até três salários mínimos, estão aptas a se cadastrar no CadÚnico. Por isso, após a pacificação, começamos ir à casa das pessoas — afirma o secretário municipal de Assistência Social, Rodrigo Bethlem.
Pequenos passos em Japeri
Quase seis meses após o lançamento oficial do Renda Melhor pelo governo estadual, moradores de Japeri, na Baixada Fluminense, beneficiados pelo programa contam os passos que avançaram nesse tempo. No dia 1º de junho deste ano, o GLOBO mostrou a realidade de duas famílias da cidade, que tem o maior percentual no estado de moradores abaixo da linha da extrema pobreza: são cerca de 22 mil pessoas, ou 23% da população. As famílias de Rode Macedo Pereira, de 43 anos, e Dalva Costa dos Reis, de 35 anos, voltaram na última terça-feira a receber a visita da equipe de reportagem.
Há 15 dias, Rode se mudou com seus dez filhos e uma neta para uma outra casa no mesmo bairro, Guandu. Outra novidade é a gravidez do seu 11º filho: ela está no quarto mês de gestação. O imóvel, mais bem dividido do que o outro, que tinha apenas uma sala, um quarto, cozinha e banheiro, foi cedida pela igreja evangélica que frequenta. A residência possui dois quartos e duas salas, dando para acomodar melhor a família numerosa.
Os quartos agora têm camas — são duas de casal e uma de solteiro —, doadas por um leitor de O GLOBO sensibilizado com as condições de vida da família. Antes, eles dormiam no chão, sobre lençóis. Mas Rode agora não conta mais com a ajuda do marido, que saiu de casa há dois meses. A vida segue com os benefícios do estado e do governo federal: R$ 300 do Renda Melhor e R$ 166 do Bolsa Família. O namorado da filha mais velha, Aline, de 21 anos, que tem um bebê de 7 meses, contribui com o dinheiro da venda de mangas que recolhe das ruas.
A filha de Aline, Mirela, ainda não foi registrada porque o pai perdeu os documentos. A precariedade em que vivem ainda é grande, mas Rode garante que tudo melhorou um pouco:
— Melhorou um pouco, mas melhorou. Hoje não tem carne, mas amanhã (quarta-feira) vai ter — diz a dona de casa, lembrando o dia que recebe o dinheiro do Bolsa Família.
Os dez filhos têm entre 21 anos e um ano de idade. Aline já não estudava, e Joana largou a escola por problemas de saúde, segundo a mãe. Raíssa, de 13 anos, que está no 8º ano, conta que a alimentação, antes limitada a arroz, feijão, fubá, melhorou:
— Agora tem pão, legumes e biscoito.
Em outro bairro da cidade, o Nova Belém, Dalva ainda mora com seis filhas, com idades entre 2 e 15 anos, numa pequena casa cheia de rachaduras e visivelmente condenada.
Ela planeja começar este mês a obra de um novo banheiro e cozinha com o dinheiro do Renda Melhor: R$ 281 por mês. Ela também recebe R$ 230 do Bolsa Família, e R$ 545 do INSS, por causa de uma filha com necessidades especiais.
— Quero começar a obra em dezembro. Já paguei a areia, a pedra e o tijolo — afirma a dona de casa, que tem medo de a casa cair numa chuva forte. — Quando venta as telhas batem, dá a impressão que as paredes balançam.
Na próxima segunda-feira, 400 jovens de Japeri que estão no programa Renda Melhor Jovem participarão de uma formatura de um curso de qualificação profissional na área de construção civil. No município, em Belford Roxo e São Gonçalo o Renda Melhor atinge 52 mil famílias, sendo que a Secretaria estadual de Assistência Social e Direitos Humanos irá expandir o programa para mais 35 cidades. O objetivo é chegar ao fim do ano que vem com 210 mil famílias atendidas e uma transferência de recursos na ordem de R$ 170 milhões. Os dois programas fazem parte do Plano Rio Sem Miséria, sancionado pelo governador Sérgio Cabral na segunda-feira e cuja meta é erradicar a pobreza extrema no estado até 2014.


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